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- As Grandes Emigrações Europeias para as Américas
Por Méri Frotscher Kramer (Professora - Unioeste) Se hoje a Europa é um continente de imigração e refúgio para muitas pessoas da África, América e Ásia, no século XIX milhões de emigrantes deixaram os portos europeus à procura de melhores condições para viver. De 1815 a 1920, cerca de 60 milhões de europeus emigraram, 71% para a América do Norte, 21% para a América Latina e 7% para a Austrália. Os que emigraram até 1880 eram sobretudo do Norte da Europa (irlandeses e alemães). Os que emigraram depois, entre 1880 e 1915, eram principalmente do Leste e do Sul da Europa, onde a pressão demográfica chegou mais tarde. Mais uma vez nessa onda os EUA receberam a maior parte desses emigrantes.[1] A revolução industrial e mudanças na estrutura agrária causaram profundas transformações sociais e econômicas em diversas regiões na Europa, fazendo emergir a chamada “questão social”. O aumento populacional pressionou o setor agrícola e a mudança dos métodos de arrendamento, cultivo e produção acabou levando muitos camponeses e artesãos a emigrar. As grandes emigrações foram possíveis a partir do reconhecimento da liberdade, sob influência dos valores liberais da revolução francesa. Eles inspiraram o princípio “ubi bene – ibi pátria” (onde se vive bem, aí está a pátria). A ideia de “Fazer a América”, lugar da liberdade e da fartura, onde a terra era abundante, se difunde. A partir de 1880, com a substituição total da vela pelo vapor nos navios e o espraiamento das ligações ferroviárias, a emigração torna-se um fenômeno em massa, um negócio muito rentável para os interesses comerciais de agentes, recrutadores e armadores. A litogravura alemã acima, aborda criticamente o que chama de “exportação” de pessoas: enquanto pelo portão à esquerda entram mercadorias, “exporta-se” pessoas pelo portão à direita. Nem sempre razões econômicas eram as mais fortes, já que pessoas de mais posses e profissionais liberais também emigraram. É o caso de muitos liberais da “geração de 1848” e de socialistas e anarquistas, os quais chegaram a fundar comunidades nas Américas. Mas como os próprios sujeitos vivenciaram e narraram suas experiências migratórias? O que podemos aprender com suas escritas de si? Vejamos o diário de um jovem da Prússia que embarcou no porto de Hamburgo em 1862: “Aos 8 de setembro de 1862 deixei a minha pátria a fim de partir para o Chile, na América do Sul. Tentei facilitar a despedida dos meus queridos pais, não perdendo de vista o meu objetivo e, além disso, depositando minha esperança no reencontro, se assim for o desejo de Deus”. [2] Pela leitura do diário logo se descobre que ele acaba embarcando rumo ao porto de Rio Grande, no sul do Brasil. No diário, a emigração é vista como possibilidade de exercício da liberdade. Ele se coloca como precursor do projeto emigratório familiar, já que pais e irmãs se juntam a ele depois de receber cartas suas. Como toda fonte, diários e cartas precisam ser contextualizados e interpretados com cuidado. A depender dos destinatários e dos interesses do remetente, as cartas podiam conter autocensuras e exageros, como rememora um padre sobre cartas enviadas da colônia Blumenau à Alemanha: “As cartas traziam imagens extremamente exageradas. Elas eram deixadas em cima da mesa familiar ou eram trazidas ao pároco, que as lia minuciosamente e do púlpito da igreja transmitia as lembranças e cumprimentos enviados”.[3] Jornais locais na Europa publicavam cartas de emigrantes tanto para defender a emigração, como para denunciar as questões sociais que a engendravam, a depender de seu posicionamento político. O jornal liberal Allg. Ausw. Zeitung da Turíngia, Alemanha, por exemplo, publicava cartas positivas como incentivo à emigração para as fazendas de café do Brasil. [4] Ao contrário, cartas podiam ser apreendidas nos correios para se impedir a emigração. É o caso de cartas de poloneses emigrados para os EUA e Brasil em 1890 e 1891 confiscadas pelas autoridades czaristas. Essa interferência impediu muitos de irem ao encontro de seus amigos e familiares.[5] Mas muitos imigrantes eram analfabetos. Isso não impedia de pedirem para outras pessoas escreverem cartas em seu nome. Elas revelam os diferentes níveis de instrução entre eles. Cartas podiam ser as únicas pontes que ainda ligavam os familiares separados pelo Atlântico. Numa carta escrita em 1855 da colônia Dona Francisca, Santa Catarina, Ida assim expressa afetos e saudades: “Sim, minha querida mãe, eu acredito que vocês também se alegram quando recebem cartas nossas; mas maior que a nossa não pode ser a vossa saudade e alegria. Vocês continuam a viver nas velhas circunstâncias, nada que é estranho vos cerca; também todos vocês ainda tem parentes e amigos, só uma pequena fresta se abriu com a nossa partida. Não assim é conosco, nós somos os que emigraram, e mesmo que estejamos aqui, entre conterrâneos, eles são estranhos [...] procuramos sempre no passado o que o presente não nos pode dar”.[6] Como se vê, diários e cartas de migrantes oferecem mais que informações objetivas, nos dão acesso aos sentimentos, avaliações, expectativas, frustrações, crenças e, por isso, ajudam a apreender dimensões subjetivas da migração. [1] KLEIN, Herbert. Migração internacional na história das Américas. In: FAUSTO, Bóris (Org.) Fazer a América. São Paulo: Edusp, 2000, p. 21-25. [2] Diário de Paul Schwarzer, 1862-1864. Acervo do Arquivo Histórico de Blumenau. [3] Padre Stanislau Schaette, Blumenau. [4] Jornal especializado no tema da emigração - Rudolstadt, Alemanha. https://zs.thulb.uni-jena.de/servlets/MCRFileNodeServlet/jportal_derivate_00034336/AWZ_5_1851_Nr129.pdf [5] KULA, M. Carta dos imigrantes do Brasil. In Anais da Comunidade Brasileiro-Polonesa. 8, p. 9-16, 1977. [6] Carta de Ida Dörffel à sogra Christiane Dörffel. Dona Franziska, 16.11.1855. p. 152. Sobre isso vide também o livro de Marcin Markovski. https://europeandesign.org/submissions/we-are-all-migrants-letters-of-polish-immigrants-from-america-in-the-late-19th-century/
- A expansão marítima e o mercantilismo
Infográfico e vídeo produzidos pelos acadêmicos da disciplina de História Moderna I (Curso de História da Unioeste), como parte das discussões da disciplina. O vídeo a seguir sobre a expansão marítima portuguesa e os imaginários sobre a África e os perigosos mares desconhecidos para os europeus, foi produzido como parte da disciplina de História Moderna I, cujo roteiro foi escrito pelos acadêmicos Samuel Antônio de Grandi, Aline Mariela Binsfeld e Maria Isadora Galvão Gaeski (acadêmicos do curso de História da Unioeste) e contou a apresentação da acadêmica Maria Isadora Galvão Gaeski.
- O Queijo e os Vermes - Carlo Ginzburg
Resenha de Marcos Gabriel Ruas Benedito (Acadêmico do curso de História -Unioeste) "Temos, por um lado, dicotomia cultural, mas, por outro, circularidade, influxo recíproco entre cultura subalterna e cultura hegemônica, particularmente intenso na primeira metade do século XVI”. (GINZBURG, C.) A obra de Carlo Ginzburg é um prócer por dois motivos: em primeiro lugar, é o magnum exemplo da corrente historiográfica da microhistória (que com Ginzburg, passou a ganhar maior presença no campo da ciência), e em segundo lugar, possui uma narrativa atrativíssima durante a exposição dos julgamentos e visões do protagonista Menocchio, um singelo moleiro que ousou discutir em pé de igualdade com os inquisidores. As primeiras páginas do livro dedicam-se a um argumento do autor. Aqui, Ginzburg dedica-se a explanar suas considerações acerca do que seria a microhistória, a história das mentalidades e principalmente, a história cultural. Carlo rebate autores que pressupõem um único elemento de uma dita tradição cultural como fruto homogêneo de toda uma camada popular, ignorando as especificidades por dentro da mencionada. Como exemplo demonstrativo, o autor cita o cordel, objeto de estudo de Robert Mandrou e Geneviève Bollème. Mandrou e Bollème, na visão de Ginzburg, teriam se apressado em definir o cordel como expressão livre de uma cultura popular, estereotipando então o imaginário camponês como sendo “adocicado”, “fatalista” e deveras “fantasioso”. Apoiando-se não só em estudos próprios, como também nos estudos de Bakhtin, Carlo Ginzburg então explana que a problemática muda de figura ao analisar a “cultura imposta às classes populares” e não a cultura “produzida” por tal classe. Antes, o autor cita que o historiador se sente desencorajado, não sem motivos, em estudar tais fenômenos, uma vez que grande parte da cultura popular é transmitida oralmente, com escassos registros históricos. E o que se tem de registros históricos, muitos foram escritos por autores que estudaram o tema em suas respectivas épocas, dando margem para uma delimitação visionária e uma “deformação” da tradição real. Nem tudo é pessimista, todavia, uma vez que chegamos a um ponto crucial do argumento inicial de Ginzburg: os mundos culturais da classe dominante e subalterna não são inteiramente distintos, anuladores um do outro ou necessitados de estudos generalizantes acerca de cada um. Portanto, temos, no argumento de Ginzburg, a clarificação do primeiro motivo do porquê da importância de sua obra: é um estudo que redefiniu as bases do pensamento da história cultural, partindo de um novo ângulo, uma nova problemática, tratando das especificidades de cada mundo, de cada classe, sem generalizar, sem oferecer um panorama macro apressado ou presunçoso. O maior exemplo do elo ligante entre classes que comprova a afirmação anterior é o Carnaval (fator também considerado por Bakhtin): a própria natureza carnavalesca (a liberdade, promiscuidade, a abundância, a felicidade, o festim dionisíaco) era um contraponto ao dogmatismo e o conservadorismo da classe dominante. Logo, podemos ver que as culturas de cada classe se interligavam, tal como o autor disse, em uma espécie de circularidade. Clarificado o primeiro motivo, vamos ao segundo: a narrativa. Há de se começar descrevendo quem é o protagonista do estudo de Ginzburg. Domenico Scandella, apelidado de Menocchio, era um moleiro da vila de Montereale, próxima de Pordenone, na região Friuli. Casado, tinha filhos, era alfabetizado (fato que o ajudou a argumentar com grande capacidade em seus julgamentos) e era descrito por seus conterrâneos como sendo questionador. Chamava a atenção pelas suas visões religiosas únicas e que contrapunham os dogmas católicos. A figura de Menocchio se demonstra singular e interessante em sua descrição prévia. Ele era alfabetizado, característica rara e notável para quem não era da elite, contudo, não era um intelectual, um cardeal ou um acadêmico. Não detinha em suas mãos uma vasta biblioteca com centenas de livros. Não sofreu inspiração ou meramente reproduzia visões de intelectuais (Ginzburg traça diversas vezes paralelos entre o pensamento de Menocchio com o de alguns autores pagãos, de seitas como os benandanti, e de intelectuais como Dante, contudo deixa claro que existe a possibilidade de Menocchio ter entrado em contato com as ideias de tais figuras, mas não afirma certeza), mas sim tinha criado suas próprias ideias. Menocchio, portanto, difere e muito da estereotipada visão adocicada e passiva que se tinha na historiografia dos populares. Denunciado à Inquisição por um pároco local, Menocchio teve seu primeiro julgamento em 1583. Ali, pode-se ver em detalhes diversas das visões do moleiro. Relativizou a blasfêmia, declarando que a mesma só traz malefícios ao blasfemador, descartando seus efeitos a quem a ouve (há de se lembrar que a blasfêmia era um dos mais graves crimes no processo inquisitório). Duvidou da virgindade de Maria, dizendo que uma mulher é incapaz de dar à luz e continuar virgem. Discordou da vinda divina de Jesus Cristo, dizendo que nasceu do homem e que sua morte não foi um sacrifício salvador da humanidade, qualificando, portanto, a morte de Jesus como sendo um ato de penitência como qualquer outro. Desqualificou todos os sacramentos como sendo simples peças de negócios por parte da Igreja, criticou a arrogância do clero (afirmando que tal como o próprio Diabo, o clero buscava saber mais que Deus e se equiparar a ele), a riqueza acumulado por seus membros e por fim, a própria estrutura do julgamento inquisitório, pois achava uma armadilha e uma injustiça com os mais pobres utilizar-se de uma língua incompreensível como o latim, fazendo com que os réus se confundissem facilmente. Finalmente, Menocchio demonstrou um ato de tolerância religiosa, declarando que muito embora prefira ser católico, Deus salvará a todos, mesmo que seja judeu, islão, herege ou turco. Nesta listagem, vê-se que Scandella era um homem com visões distintas grandemente dos dogmas e práticas da Igreja Católica, com pensamentos minoritários se considerarmos a sua época. Importante notar que, Menocchio não atingiu alto grau de imaginário próprio sozinho: ele possuía alguns livros (a maioria por empréstimo), como por exemplo Il fioretto della Bibbia (uma tradução de um compilado de crônicas catalãs medievais), Il Lucendario de santi (uma tradução italiana da Legenda Áurea), Zampollo (um livro cuja descrição do Paraíso se assemelha a de Menocchio), o Decameron de Bocaccio, dentre outros. Todavia, o moleiro não simplesmente reproduziu fielmente os pensamentos dos livros, como dito anteriormente, mas sim os interpretou a sua maneira. Inclusive, um livro não identificado possuído por Menocchio é destacado como sendo uma possível tradução italiana do Alcorão, o que pode ter auxiliado Domenico em sua visão tolerante. A eminente parcela do pensamento de Menocchio, está, porém, em sua visão a respeito da cosmogonia, que era completamente única. Para ele, tudo o que existia anteriormente era o caos, isto é, os quatro elementos clássicos misturados em um só, formando uma grande massa, tal como o queijo é formado do leite, com vermes então aparecendo nesta grande massa, sendo os anjos. A majestade divina (que Menocchio deixa implícito não ser o próprio Deus) decretou que um dentre os anjos, que seria Deus, seria o lorde comandante com quatro capitães: Lúcifer, Miguel, Gabriel e Rafael. Lúcifer, por querer se equiparar ao poder supremo, foi então expulso juntamente com seus simpatizantes pela sua arrogância. Deus, então, criou Adão, Eva e a humanidade para preencherem o lugar deixado pelos anjos caídos. E, quando a multitude não seguiu os comandos de Deus, ele então enviou seu filho, Jesus, que foi então crucificado. Tamanha criatividade para imaginar uma visão cosmogônica tão detalhada é o principal artifício que prende também um leitor mais casual à obra, uma vez que sem sombra de dúvidas levanta curiosidade sobre como um moleiro alfabetizado, que tinha lido alguns livros apócrifos e traduções de outros livros distantes, chegou a tal ponto. Ler o julgamento de Menocchio não é simplesmente um ato de estudo, mas também um ato literato e de grande apetrecho narrativo. Quanto ao destino de Menocchio, uma nova série de questionamentos por parte dos inquisidores o levou a se contradizer diversas vezes, denunciando ainda mais sua discordância profunda em relação aos preceitos dogmáticos (por mais que Menocchio a princípio tenha declarado que seus pensamentos vieram por “intervenção diabólica”), acabou por tê-lo condenado à prisão no ano seguinte (1584), ainda que Scandella tenha escrito uma carta renegando seu pensamento. Após passar vinte meses em cárcere, uma intervenção de seu primogênito resultou em sua soltura, mas ainda assim condenado em prisão domiciliar, a carregar um símbolo de uma cruz carbonizada como aviso de seus crimes em suas roupas e a não sair de Montereale (parte que depois foi flexibilizada, desde que com a autorização de uma autoridade local). Contudo, a natureza questionadora de Menocchio (aliada a seu desejo de recontar seus pensamentos a príncipes, nobres e reis) o levaram a se isolar da comunidade em seu retorno e a retomar suas falas divergentes das da Igreja. A perda gradual de sua família (a esposa e o primogênito morreram, e sua filha, Giovanna, já havia se casado anos antes, juntamente com a deixa de seus outros filhos) também o afetou, assim como a marca da cruz em sua roupa o deixou estigmatizado por quem o via. Finalmente, em 1598, um forasteiro, abismado com os questionamentos de Menocchio, o denunciou novamente à Inquisição. Em seu segundo julgamento, Menocchio admitiu com maior firmeza ele ter sido o próprio autor de suas ideias, embora tenha adotado uma postura mais defensiva e pedindo clemência. De nada adiantou, e Domenico Scandella foi considerado um heresiarca, sendo executado por carbonização em 1599. Em suas palavras finais, Ginzburg destaca que ao mesmo tempo em que Menocchio era julgado pela segunda vez, Giordano Bruno também era julgado em Roma. Logo, podemos ver uma vez mais a comprovação do autor da circularidade cultural recíproca, afinal, tanto o mundo popular e o intelectual se equipararam em uma questão comum, não sendo completamente distintos um do outro. Pode-se inferir então, que estudos micro como o da análise do caso de Menocchio são de grande valia para a História, uma vez que se pode analisar de uma forma muito mais aprofundada e abrangente as relações sociais em uma época, as especificidades de cada cultura, e, principalmente, a função que cada uma dessas particularidades exerceu em seu tempo, para que assim exista uma melhor compreensão do processo histórico. INFOGRÁFICO DE LUÍZA BEILKE KUNTZ (ACADÊMICA DO CURSO DE HISTÓRIA DA UNIOESTE) #OQueijoeosVermes #Ginzburg #Inquisição #História
- História e Música: Tecnologias e Memórias
Por Juliana Wendpap Batista (Historiadora, Doutora em História pela UFF) O caráter polissêmico da música e sua linguagem não referencial, transformam essa matéria em um campo de pesquisas indócil. Compreender o seu sentido no tempo, e através do tempo, não se faz apenas por meio de um simples processo de decodificação, mas sim a partir do entendimento de sua construção numa rede de múltiplos agentes, esses nem sempre visíveis. O problema reside, em primeiro plano, na própria essencialidade do material musical: como tratar uma fonte intangível? A música escapa de nossas mãos, sendo verificável apenas por meio dos indicativos do seu processo. Podemos ver sua grafia numa partitura, mas ela só acontece ao ser executada. Por outro lado, ela independe de sua escrita, ou até, de instrumentos musicais, fazendo-se acontecer no soar melódico da nossa voz. Trata-se de um fenômeno tido como universal, pois sua presença é verificável em todas as épocas, entre os diferentes povos e culturas que habitam nosso planeta. A notação musical, até fins do século XIX e início do século XX, foi a grande guardiã da memória musical. As partituras constituíam então o único meio de conseguir execuções múltiplas e fiéis de uma mesma obra. As inovações tecnológicas, como o fonógrafo, chegaram para driblar a efemeridade da música, a qual passou a ser apreendida em suportes de mídias fonográficas, chegando ao século XXI com larga distribuição e reprodução via streamings, em plataformas digitais. Isso faz a música extrapolar os limites do acontecimento de sua execução, permitindo sua manifestação posteriormente, ficando acessível assim a todos, em qualquer momento ou lugar. Reflexões sobre a relação intrínseca da música com o tempo, encaminham para a maior afinidade desta forma artística com a história: o próprio tempo. Marc Bloch define a história como “a ciência dos homens no tempo”, contrapondo a visão da “história como uma ciência do passado”. Ele também pondera que se “esse tempo verdadeiro é, por natureza, um continuum (…), [é] também perpétua mudança”. Esta constante preocupação dos historiadores com o tempo histórico deve ser considerada nas pesquisas sobre músicas, as quais produzidas pelo homem no tempo, a cada situação de reprodução, acabam por trazer consigo a diferença. Surge, então, um segundo problema para o pesquisador: nossos ouvidos podem atingir um padrão de audição capaz de compreender o momento de produção, ou mesmo de reprodução, de uma obra musical? Dilemas metafísicos e desafios de parâmetros de escuta são apenas algumas das preocupações que têm ocupado os pesquisadores nos últimos tempos, tanto musicólogos, quanto historiadores. Nesse percurso, os estudos de história e música incidiram por encontros e desencontros, caracterizados pela própria epistemologia e busca de uma definição destes dois campos de saberes. Estes refletem as preocupações e dificuldades vivenciadas pelos interessados na temática e no ato de “pensar” a música. Memória em tempos de internet Pensar a música no tempo é pensar o movimento dos sons, assim como pensar a história é refletir sobre as memórias em movimento. Os sons do mundo não cessam, quando pensados globalmente. Na ordenação, de parte desses sons, são geradas milhares de músicas, que tocam sem parar ao redor do mundo. Isso se verifica facilmente na era digital em que vivemos e a qual faz crescer ainda mais a indústria de entretenimento. Dela, faz parte a indústria fonográfica, que ao longo do século XX estruturou-se para a transformação das músicas em produto, em vários casos com enorme êxito, temos aqui a ideia de sucesso, de onde surgiram ídolos que marcaram suas décadas. Transformada em produto, a música transpôs distâncias e rompeu continentes. Levada, primeiro pelas ondas do rádio, depois pela TV via satélite, agora alcançou o mundo por meio da internet. A internet e suas redes sociais propiciam uma interconexão, dita sem limites. Podemos assistir simultaneamente, e praticamente em tempo real, eventos de entretenimento ao redor do mundo. Atualmente, com o fenômeno vivenciado pela pandemia do COVID 19, elas tem sido uma ferramenta muito valiosa para manter a produção artística viva, aproximando públicos e artistas. É preciso lembrar que antes de tornar-se mercadoria, a música é produto cultivado pelos homens na ancestralidade. Ao longo dos séculos, em seus meios, criou sentidos e memórias através do tempo. Como fruto dos homens, carrega as contrariedades e limitações próprias do tempo em que foi concebida. As transformações tecnológicas, compreendidas a partir do desenvolvimento dos primeiros instrumentos musicais, passando pelo surgimento e ampliação de técnicas de gravação dos sons e imagens em suportes de mídia analógicas e digitais, até a criação de meios virtuais de indexação e propagação das mesmas, mudaram as relações de produção e recepção das músicas ao redor do mundo. Se por um lado, a rede de internet homogeneíza e massifica, entre outros produtos, também as músicas, por outro lado, também cria ferramentas e espaços para diferentes manifestações culturais, compartilhando saberes numa contínua diversificação do mundo. Etnias contrastantes, fundamentadas na oralidade, têm hoje representações de suas tradições facilmente localizáveis em vários sites de compartilhamentos de vídeos. Isso deve ser percebido sem a crença de que vivemos em um mundo onde todos estejam conectados, tampouco ser gerido por certo maniqueísmo que divida o mundo entre aqueles que estão dentro ou fora da rede. O que chama a atenção nessa era digital é a velocidade com que sua atuação vem alterando a percepção do mundo pelos sujeitos. A escrita da história, habituada com os arquivos e seus documentos, os quais há poucas décadas atrás, materializavam-se em pilhas e pilhas de papel, também se esforça para apreender um número sem fim de informações geradas e compartilhadas, dia após dia, em plataformas digitais. Superada a ampliação da noção de documento, assistimos hoje ao alargamento das possibilidades de pesquisa e divulgação de todo tipo de informação. Ao longo do século XX, as transformações tecnológicas possibilitaram a multiplicação das mídias através de meios técnicos que revolucionaram as formas de produção, reprodução, armazenamento e difusão de mensagens. É inegável que o rápido desenvolvimento, dessas e outras tecnologias, na virada do século XX, transformaram também a maneira de ensinar, pesquisar e divulgar a história. É nesta seara, de um mundo digitalmente compartilhado, que vamos busca tecer relações entre história, memória e música. Adaptação do texto: BATISTA, Juliana Wendpap. Pensando a musica no tempo: Reflexões sobre a pesquisa história em história e Música entre os séculos XX e XXI. In: MEDEIROS; SOUZA (ORGS). História & Música Popular. Teresina: EDUFPI, 2013. pp. 13-41. Referências: BLOCH, Marc Leopold Benjamim. Apologia da História – o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001. #históriaemúsica #históriaememória #músicaetecnologia
- A Invenção da América Latina
Por Professora Dra. Ângela Meirelles (História - Unioeste) O termo América Latina é muito utilizado, mas sabemos exatamente a quais países este nome faz referência? Se pensarmos bem, a América Latina não corresponde exatamente à divisão dos blocos geográficos estabelecidos, como América do Sul, do Norte e Central. Tampouco corresponde apenas a países onde houve colonização por metrópoles de origem latina, como Espanha, França e Portugal. E o Brasil, faz ou não parte da América Latina? Este tema é um assunto muito debatido entre os pensadores desde a chegada dos Europeus ao continente, passando pelo século XIX. Até hoje segue sendo uma preocupação dos intelectuais, já que entender as origens, os significados e os usos da ideia de América Latina nos ajudará a compreender nossa identidade e também nossos projetos de futuro. A ideia de que haveria uma unidade na região do mundo hoje conhecida como América Latina surge no momento das Independências, no século XIX. Desde os anos 1960, predominou a ideia de que o termo América Latina foi cunhado pelo economista francês Michel Chevalier, em 1861, para “justificar o imperialismo francês no México sob o domínio de Napoleão III”. Naquele momento o México enfrentava instabilidade política por conta da formação do Estado nacional após a Independência, ocorrida em 1821. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos articulavam-se como uma grande potência que previa tutela e supervisão dos países vizinhos contra as ameaças dos países europeus e também por seus próprios interesses expansionistas. Estas ideias ficaram conhecidas como Doutrina Monroe (1823), que tinha por base a máxima “A América para os americanos”. Por trás deste princípio, defender os países americanos das nações monarquistas organizadas no Congresso de Viena (1815), estavam os próprios interesses dos Estados Unidos na expansão territorial, ou mesmo simples anexação dos territórios do continente. Voltando à ideia de América Latina, na tentativa de forjar uma identidade comum entre os países de fala hispânica e a França, no que ficou conhecido com panlatinismo, Chevalier utilizou o termo América latina. Para ele, a origem latina comum nos aproximaria mais da França do que dos anglo saxões, ou seja, estadunidenses e britânicos. Neste contexto, em 1862, a França conseguiu invadir o México e implantar uma monarquia. Fez coroar um nobre austríaco Maximiliano de Habsburgo transformando-o no Imperador do México. Esta ação teve apoio dos conservadores mexicanos, que se opunham ao presidente Benito Juarez, um liberal. Após cinco anos as tropas republicanas de Juarez venceram os invasores franceses e, em 1867, Maximiliano de Habsburgo foi fuzilado. Mas seria, então, a ideia de América Latina uma invenção francesa? O filósofo uruguaio Arturo Ardao, em 1980, escreveu um livro se opondo a esta tese e defendendo que o termo foi utilizado pelo jornalista colombiano, residente em Paris, José Maria Torres Caicedo (1830-1889), no ano de 1856. Portanto, antes de Chevalier. Caicedo publicou o poema “Las dos Américas” ou As duas Américas, onde opunha a América de origem latina à América de origem saxônica (os Estados Unidos), vista como “sua inimiga mortal que ameaçava destruir a liberdade”. Por que é tão importante buscarmos saber quem inventou o termo e em que contexto foi usado? Porque desde então o termo América Latina vem sendo incorporado pela região para entender-se por meio de uma identidade comum, e desta forma opor-se ao imperialismo europeu e estadunidense. A América Latina significa hoje este conjunto de países que passaram por processos históricos semelhantes, a exploração colonial dos séculos XVI ao XIX, o neocolonialismo e o imperialismo no século XX. É um termo que permite unir mais a Argentina e a Jamaica, país de fala inglesa, do que o Canadá francês, já que estamos falando dos séculos de espoliação colonial, processo histórico que o Canadá não enfrentou. E afinal, com este critério, podemos entender que o Brasil faz parte da América Latina? O que você acha? #HistóriadaAmérica #AidéiadeAméricaLatina #IdentidadeLatinoAmericana #termoAméricaLatina Referências: ARDAO, Arturo. Genesis de la Idea y el Nombre de America Latina. Caracas: Centro de Estudios Latinoamericanos Romulo Gallegos, 1980 FARRET, Rafael Leporace e PINTO, Simone Rodrigues. América Latina: da construção do nome à consolidação da ideia. Topoi, v. 12, n. 23, jul.-dez. 2011, p. 30-42. PRADO, Maria Ligia C. ''Identidades latinoamericanas (1870-1930)''. In: Enrique Ayala Mora (director), Eduardo Posada Carbó (Codirector). (Org.). Historia General de América Latina - Volumen VII: Los proyectos nacionales latinoamericanos: sus instrumentos y articulación, 1870-1930. Ied.Paris: Ediciones UNESCO / Editorial Trotta, 2009, v. VII, p. 583-615.
- O ILUMINISMO E A ARTE: A PINTURA DE GOYA
Por Giulia Beatriz Plassmann (graduanda em História - Unioeste) De acordo com Todorov, a pintura para Francisco Goya não era mero divertimento: a imagem revela um pensamento por meio do qual apresenta uma reflexão sobre o mundo e os homens. Goya filosofou sobre seu tempo e a expressou por meio de sua arte. O que percebemos ao apreciar sua obra são as entranhas e o horror daquilo que ele viu e viveu, e acima de tudo, sobre o sentiu: medo, temor, indignação, incompreensão, compaixão. Goya acompanhou boa parte de acontecimentos marcantes da História do século XVIII e do começo do XIX, desde o ambiente intelectual do pensamento Iluminista, do qual era um entusiasta e defensor, até as ações tardias da Inquisição espanhola, que retratou em muitas de seus desenhos, testemunhos de toda insensatez e violência daquela instituição. Também foi contemporâneo da Revolução Francesa e da ocupação da Espanha pelo exército de Napoleão Bonaparte sobre a qual pintou a famosa série “os desastres da Guerra”. Nesta série demonstra, com riqueza de detalhes a brutalidade da guerra e sua falta de sentido: tão devastadora ela é, que liberta os monstros mais cruéis que habitam a humanidade e, em meio ao caos, se esquece seu motivo ou fim, resta apenas violência e morte. Mesmo nas pinturas que fazia sob encomenda, ele não deixava de lado suas críticas pessoais ao tempo e sociedade que vivia. Nas figuras da realeza podemos perceber sua ambição e soberba, e ao mesmo tempo, algo de caricatural e grotesco. Como forma de denúncia às superstições de sua época Goya pintou o obscuro, o pesadelo e o noturno: bruxas, demônios, monstros, seres sinistros do imaginário popular e católico. As bruxas são representadas como velhas, corcunda s, narigudas, em pacto com o demônio, comendo criancinhas e cozinhando pessoas. Fiel ao imaginário popular e cristão da Espanha da época o objetivo dessas obras talvez seja justamente chocar as pessoas que as observam, mostrando o absurdo de se acreditar em tal fantasia macabra, afim de reerguer um ideal já ultrapassado naquele momento de caça às bruxas. Uma de suas obras mais populares representa Saturno devorando sua cria. “É a sociedade eliminando seus excluídos”, Goya quer demonstrar que a “A prisão é uma máquina de triturar o humano.” Que a sociedade é cruel e que exclui e tritura as pessoas que não se encaixam por algum motivo. Goya foi um dos mais peculiares artistas de sua época e é isso que o torna tão especial: suas pinturas não se encaixam em nenhum movimento artístico. Utilizava-se de formas e linhas, mas as negava, defendendo que a arte deveria aproximar-se o máximo possível da natureza, ou seja, da luz e sombra. O pintor ainda acreditava que não deveriam existir regras para a pintura. Para Goya o estudo de técnicas de pintura era um verdadeiro obstáculo para um jovem artista, pois o reprimia e o moldava aniquilando sua autonomia e originalidade. Isso talvez tenha a ver com a sua adesão ao pensamento iluminista, cujo ponto de partida é a crítica à autoridade mantida pela tradição, sob todas as suas formas. Os iluministas garantem sua legitimidade a partir da autonomia da observação imparcial do mundo e do raciocínio lógico. Os iluministas, assim como Goya, denunciavam preconceitos, superstições, ignorância contra os quais invocam a ciência e o conhecimento: Pois o sono da razão produz monstros. Referências Bibliográficas: TODOROV, Tzvetan. Goya, à sombra das luzes. Companhia das Letras, 2014. #Goyapintura #FranciscodeGoya #Iluminismo #GoyaeoIluminismo #PintoresIluministas #SaturnoDevorandoumFilho #PinturasNoturnas #PintoresEspanhóis
- Os lavradores e a terra no Paraná oitocentista
Por Prof. Dr. Fabio Pontarolo (Universidade Federal da Fronteira Sul - UFFS) Até o século XVIII, todo o Oeste do estado do Paraná fazia parte dos territórios tradicionais dos indígenas Kaingang e Guarani, que somavam milhares de habitantes em diferentes grupos espalhados pela região. Essas áreas eram repletas de campos e pinheirais que se estendiam até o Rio Grande do Sul. Pelo sistema Colonial, as terras do Paraná também estavam sob poder da Capitania de São Paulo. A PRIMEIRA TENTATIVA DE OCUPAÇÃO Com o avanço das fazendas de criação de gado de portugueses e paulistas na região de Castro e Curitiba, o gado criado nessas fazendas era levado por tropeiros pelo caminho do Viamão até Sorocaba, em São Paulo, onde era vendido para o Rio de Janeiro e para Minas Gerais. A partir de 1750, os fazendeiros dessas cidades passaram a fazer novas expedições contra os indígenas mais à Oeste, e com ajuda do governo colonial português, tentaram expandir suas propriedades em direção aos campos de Guarapuava. Porém, em 1772, após 4 anos de tentativas, as tropas comandadas pelo português Afonso Botelho foram derrotadas pelos indígenas Kaingang, que conseguiram adiar a tomada dos seus territórios pelos fazendeiros dos Campos Gerais. A OCUPAÇÃO NO SÉCULO XIX Em 1809, após a chegada da família real portuguesa ao Brasil, uma nova expedição foi preparada e enviada de Curitiba para os Campos de Guarapuava. Por ordem de Dom João VI, os indígenas deveriam ser catequizados, e aqueles que resistissem à ocupação de suas terras tradicionais poderiam ser escravizados pelos fazendeiros que ocupassem o território. Porém, o decreto real também ordenava que além de grandes sesmarias, fossem distribuídas pequenas propriedades para os lavradores pobres dos Campos Gerais e de toda a província de São Paulo que migrassem para Guarapuava. Esses pequenos terrenos formavam o chamado “Campo da Pobreza”, e deram origem a grandes bairros de Guarapuava, circulando a área central da cidade. Nesses pequenos terrenos com apenas alguns alqueires, esses lavradores produziam milho, feijão e ainda criavam alguns animais. Muitos desses agricultores pobres eram de origem negra ou indígena, muitos deles libertos da escravidão. Formavam um grupo de até 85% dos habitantes de Guarapuava, mas, em comparação com as grandes fazendas, ocupavam menos de 15% das terras da região. Mesmo assim, tinham um papel muito importante na economia da região. A partir de 1840, com a abertura do Caminho de Missões, criou-se uma nova rota do Oeste do Rio Grande do Sul até São Paulo, e anualmente mais de 30 mil animais passaram a atravessar Guarapuava rumo à Sorocaba para abastecer as fazendas de café com mulas, cavalos e bois. Durante a viagem, um dos pontos de parada dos tropeiros eram as invernadas de Guarapuava: fazendas transformadas em espaços de pouso, engorda e descanso dos animais até seguirem viagem. A RESISTÊNCIA DOS PEQUENOS AGRICULTORES Durante essas estadias, os pequenos lavradores podiam vender os produtos agrícolas que não consumiam com suas famílias. Assim, supriam parte das necessidades das tropas e faziam algum dinheiro que lhes garantia o complemento do sustento de suas famílias sem precisar depender do trabalho constante nas grandes fazendas. Até um pequeno mercado municipal foi criado para esse fim, com diversas barracas onde os lavradores podiam vender seus produtos. A venda do milho, do feijão, além de batatas e de outros produtos das pequenas lavouras evitava a exploração da mão de obra desses lavradores pelos fazendeiros. Estes grandes proprietários muitas vezes escreviam ao governo paranaense reclamando da dificuldade em contratar os lavradores para substituir a mão de obra nas fazendas após o fim do tráfico de escravos para o Brasil em 1850. Em 1853, o Paraná se emancipou de São Paulo, tornando-se uma nova província no Brasil Império. A economia do gado e da erva-mate deram ainda mais poder aos grandes fazendeiros paranaenses. Em 1854, os deputados da Assembleia provincial e o primeiro presidente da província, Zacarias de Góes e Vasconcelos, iniciaram a aplicação da Lei de Terras de 1850 no Paraná. Uma das maiores consequências dessa lei foi a transformação de todas as terras sem registros de propriedade, à Oeste de Guarapuava, em área devoluta, ficando sob propriedade do governo da província. Essa medida não levava em consideração que as terras já tinham donos. A partir de 1850, com o crescimento natural das famílias, os lavradores de Guarapuava e de todo o Paraná que precisavam de novos terrenos para plantar não tinham mais acesso à terra. Com o avanço da exploração da erva mate nas matas devolutas da província, era no trabalho de coleta nos ervais nativos que os lavradores complementavam a renda familiar. Outro caminho encontrado por essa população foi o trabalho na derrubada de árvores para grandes madeireiros, que fizeram muito dinheiro com a exploração clandestina dos grandes pinheirais na fronteira Oeste do Paraná, escoando a madeira para a Argentina. Hoje, certamente ainda se produz na representação coletiva da ocupação do Oeste do Paraná um imaginário baseado no imigrante europeu visto como o valente pioneiro a ocupar um espaço ainda vazio. No entanto, muitos lavradores e indígenas fizeram parte do passado da ocupação do Oeste do Paraná. No início do século XX, a Guerra do Contestado mostrou outras faces dos descendentes dos lavradores pobres do século XIX, ainda em luta pelo direito à terra no Paraná. #lavradores #indígenas #terra #Paraná #história #curtaHistória #HistóriaUnioeste #GuarapuavaHistória #HistóriaDeGuarapuava #HistóriadoParaná #ColonizaçãodoTerritório #ParanáSéculoXIX #ParanáKaingang #ParanáSéculoXVIII #ParanáOitocentista #LavradoresPobresParaná #HistóriaAgráriaParaná #OcupaçãodoTerritórioParanaense #ConflitosDeTerraParaná Para saber mais: http://tede.unioeste.br/handle/tede/4418
- Sonhos e Utopias na Modernidade
Por Prof. Dr. Claudia Monteiro (Unioeste - Campus de Marechal C. Rondon) O sonho da sociedade ideal, imaginada e desejada pela humanidade em diferentes momentos da história, nos trazem elementos para refletirmos sobre os anseios e esperanças de cada época e os seus significados. A própria ausência de utopias em nosso tempo atual e, por outro lado, o grande número de narrativas literárias e fílmicas que narram pesadelos distópicos, podem também nos revelar muito acerca do que somos, o que esperamos e como percebemos o nosso próprio tempo. Não só o que desejamos significa algo, mas também aquilo que tememos... A noção de paraíso artificial, ou mundo perfeito, remonta aos sonhos populares da época medieval e renascentista. Pieter Brueguel, artista holandês do século XVI, em suas pinturas narrou com maestria os elementos da cultura popular de sua época. Em um de seus quadros retratou a Terra da Cocanha, também chamado de país dos preguiçosos,. De acordo com Peter Burke, o País ou a Terra da Cocanha era “Um mundo à avessas onde as casas tinham os telhados cobertos de panquecas, nos riachos corria leite, os porcos assados corriam soltos com facas convenientemente fincadas em suas costas”. A terra da Cocanha era a terra da fartura e abundância de alimento, lá não era necessário trabalhar, as pessoas podiam comer e beber à vontade e toda a preocupação humana era saciar os seus desejos e prazeres. Podemos interpretar esse imaginário popular como uma recusa obstinada das pessoas contra a precariedade da vida daquela época, especialmente o medo da fome e da morte. Foi Thomas More, pensador humanista, quem criou a partir do grego, a palavra utopia, um neologismo que significa “lugar nenhum”. No entanto, More ao utilizar a terminologia grega, flertou com o seu duplo sentido, a letra U da palavra Utopia, pode significar ‘nenhum’, mas também ‘bom’. Esse dualismo está presente nos versos da edição inglesa da obra A Utopia: “Portanto, não Utopia, porém, mais corretamente, meu nome é Eutopia, lugar de felicidade”. A palavra ganha longevidade na modernidade, definindo aquilo que se imagina como perfeito, ideal, porém, imaginário, difícil de ser alcançado: Um “bom lugar” em um “lugar nenhum”. Enfim, resume a ideia de sociedade ideal, organizada em um Estado com instituições também ideais. O livro de Thomas More é uma ficção que narra a vida na ilha Utopia. Lá não há desigualdade social nem propriedade privada, e reinam a justiça e a prosperidade. A Utopia também é um lugar de fartura de alimentos e gozo dos prazeres da vida, no entanto, não se parece em nada com o País da Cocanha da cultura popular: na Utopia todos trabalham e obedecem regras rigidamente colocadas. Tão grande é a distância entre a utopia moderna de More em relação à precedente medieval que, enquanto a Cocanha era a “terra dos preguiçosos”, na Utopia há uma verdadeira obsessão no controle do trabalho e do tempo. Freud percebeu esse paradoxo da civilização: por meio do processo civilizador buscamos combater aquilo que nos causa infelizes, no entanto, quanto mais aumenta a civilização mais infelizes nos tornamos. Na bancada de negócios da modernidade, não há almoço grátis: para obter a reconfortante segurança garantida pela Estado e seus aparatos de violência, é preciso perder outra coisa. Pela segurança sacrificamos nossa liberdade e com ela uma grande quantidade de satisfações que nossos instintos nos levariam a buscar se não houvessem proibições. Por outro lado, sem a coação exercida a partir de cima não estaríamos nós condenados uma vida bestial? O lugar de felicidade, a “Eutopia”, do equilíbrio perfeito entre a segurança e a liberdade é um objetivo inalcançável. Mesmo em uma narrativa ficcional, como a de More sobre sua Ilha Utopia, há escolhas, e sua escolha foi pela segurança, em nome disso, criou uma sociedade racional e controlada pelo Estado, seu horizonte de expectativa anuncia a novidade da modernidade, onde, pelo desejo de segurança e ordem o homem sacrifica sua liberdade e, por tabela, sua felicidade. #utopia #distopia #modernidade #eutopia #brueguel #cocanha #more #sonhos #curtahistória #unioeste #HistóriaUnioeste #ThomasMore #ThomasMorus #Morus #PaisdaCocanha #Utopias Referências Bibliográficas: BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna: Europa 1500-1800. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização e outros textos (1930-1936). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. MORE, Thomas. A Utopia. São Paulo: Abril Cultural, 1979 (Os Pensadores).








